Mas aquilo que jamais se esquece envolve outro secreto frenesim - é o baile deles a galar, quando pombo e pomba se somam e cedem no rito de acasalar.
É uma coisa arrebatada. Começa com um cortejo ao redor, pescoços entrançados, bicos, bicadas e muito cu-cu-ruu. O macho incha-se, cresce de penas, a fêmea submete-se e deita-se dócil de barriga, o rabo erguido ao céu. Aí, ele trepa-lhe para o lombo, estica as penas das rectrizes, os sexos tocam-se e os dois estremecem no tresvario. É um momento de machismo burlesco: enquanto está por cima, o macho debica a cabeça da fêmea. Não é grave: o acasalamento dura uns curtos cinco segundos - ainda que os pombos se dediquem a galar infinitas vezes ao dia...
Ver e ouvir tudo isto - o cheiro de um pombal é outra coisa: é o odor cálido, amarelo e acre que emana dos farelos, misturado no ar com a acidez do mijo e da merdança - é um privilégio, mesmo para quem o faça seguidas vezes ao dia.
Ali, dentro das grades daquela luz coada, é um pombal portista, todo branco debaixo do imenso azul. É a Quinta das Rosas, Santo Ovídeo, Vila Nova de Gaia, a potente cidade columbófila que reclama para si ser a maior do país (três mil associados num universo total de 18 mil, cinco milhões de pombos nacionais).
É o pombal do pai Cesário, do filho Abílio e do seu irmão Vasco, um columbófilo assumidamente secundário que gosta de vestir uma vincada bata verde, mas que se deixou entranhar como os outros nisso de ser columbófilo.
"O que é que é? É como o futebol, ou até pior: é uma alegria e uma ansiedade e um vício". É Abílio que discorre, Abílio Pereira, 41 anos, casado, gentil, os vês a entrar pelos bês adentro, inflamado pela paixão do pombo desde que se conhece.
A época nacional de competições para os pombos federados (18 provas geridas pela Federação Portuguesa de Columbofilia; vai de Fevereiro a Junho; um terço para cada modalidade: fundo, meio-fundo e velocidade) terminou na semana passada, fechando no S. João. Estamos agora no defeso, em que o tempo é dedicado aos treinos e à procriação.
É nessa tarefa que está Lucho, um viçoso pombo azul acinzentado, enormes olhos rubros, o peito cheio de ar a arrulhar. É um papa-prémios que se retira no pico da forma, que sai com o orgulho enfaixado: Campeão Nacional Absoluto 2009. Tem uma imensa família, o pombo-correio comandante Lucho, uma irmã chamada Licha, um frenético irmão de nome Portista - "esse não é monogâmico; está agora a rodar com cinco fêmeas" - e dezenas de pequenos irmãos borrachos.
Torna Abílio: "Aqui é assim: o meu pai é o Pinto da Costa, eu sou o Mourinho e o meu irmão é o adjunto". É o Vasco, vendedor na central de Cervejas, e escusa-se por parecer brando: "É porque só tenho tempo ao fim de semana, senão estava cá sempre batido".
Eles repetem: ser columbófilo relaxa, consome muito tempo, muito amor e assanha as ansiedades. "É. É sempre assim, acho que nunca passa", diz Abílio a coçar a cabeça. "Quando se solta um pombo para uma prova, seja a 300, 600 ou 900 quilómetros traz sempre um aperto no coração - e se ele se perder e não voltar?".
Dotado de extraordinário sentido de orientação, um pombo-correio devidamente treinado regressa sempre a casa. É um mistério também para eles, columbófilos, mistura visão, memória e forte sentido de coordenação geográfica. E pouca coisa o distrai do seu voo afilado de velocidades superiores a 100 quilómetros por hora e uma capacidade de resistência que os pode fazer ir do Porto a Faro e voltar sem nenhuma paragem pelo meio. O que os aflige? As temperaturas altas da canícula do Verão, o tempo fechado e confuso das trovoadas - e o seu figadal inimigo,o temido milhafre.
É ali no alto que está a planar um, ali, um milhafre, ali, um avatar da águia cujo instinto empurra garras e bico para os pombos. Está a rondá-los, aos pombos que voam em bando na última solta do dia (os pombos treinados soltam-se duas vezes: pela alvorada e ao entardecer).
Ali já é o descampado do Pombal Municipal de Gondomar, nas traseiras de um pavilhão com piscinas. "Gondomar é o melhor concelho para os columbófilos do país", avisa logo Almerindo Mota, director da instalação subsidiada pela câmara do major Valentim - "e ele, o próprio, também é um apaixonado por pombos e pombas, mas acho que lhe falta tempo para vir mais vezes. Para nós é uma alegria".
É um campo amplo, aquele, arejado, a abundar de verdes daninhas. Num canto o branco pombal de alvenaria - é municipal, funciona como uma espécie de hotel, com taxa para tratamento e treino dos pombos -, no alto o céu azul da soltura.
"Vício, vício", assobia Almerindo, 38 anos, ourives de profissão, casado como parecem ser todos os columbófilos. "É, quando se é solteiro o tempo é para fazer outras coisas. Quando já assentamos é que parece que temos mais tempo".
Mas, mais do que ter tempo, é preciso querer tê-lo. "Isto prende muito, obriga-nos a estar aqui, é preciso alimentá-los, tratá-los, treiná-los, dar-lhes de comer toda a vida. Mas é uma válvula de escape, é um óptimo anti-stress, pergunte a quem quiser", diz Almerindo a olhar para o céu, os olhos fixos nos infinitos que voam - e ver pombos a voar em bando é como ver um interminável teste de Rorschach: os pombos são pequenos pontos, manchas de tinta que formam formas inesperadas, desenhos intermináveis. (E também aqui há um som inesquecível, o som fresco do vento das aves a rasar e das asas que batem simétricas).
Ana respondeu como quem bate as asas de alegria, o orgulho na sua condição de sem-segundo: "Quantas columbófilas há aqui no Porto?", responde ela a repetir a pergunta. "Que saiba, sou só eu". É Ana Risca, 40 anos, loira, despachada, olho azul, 10 mais 10 unhas vermelhas. Tem 300 pombos à sua guarda, ela e o marido Miguel, e ambos gerem a Avipombo, tudo para pombos e animais.
Como todos os columbófilos, é solícita e interessada e palra sem parar, Ana. Mas parece ser um poço de sensatez e ternura, a afagar os pombos nas traseiras de casa, o casebre branquinho plantado entre ameixos e dálias, ela a tratá-las por "bebé", "coisa linda", "vem cá minha pequenina".
É ela que melhor o explica: ó Ana, para fazer isto é preciso estar apaixonado? "É, é. O bicho, sabe, entranha-se em nós. Não há nada a fazer".
Retirado do Jornal de Noticias